
Sobre a Universidade Candido Mendes
Ao se criar a Faculdade de Ciências Políticas e Econômicas em 2 de junho de 1919 – o primeiro ramo já da nossa trajetória universitária –, assentava-se o primeiro instituto universitário de pesquisas do Rio de Janeiro. Plantava-se a semente, de forma profética. Entendiam os fundadores que de nada adiantaria a formalidade da transmissão do conhecimento sem o choque da experimentação, num país acostumado à exaustiva reprodução dos modelos de além-mar e ao disfarce da realidade, em que se apoiava. Insistimos na promessa e na teima do que veio a ser, em 1963, a concretização, sob a mesma sigla, da primeira organização privada de pesquisa em Ciências Sociais, que é a da nossa Casa das excelências, agora na Praça Pio X.
Criada a primeira Faculdade de Economia e Contabilidade Superior no país, junto com a Álvares Penteado, em São Paulo, mantivemos, até o fim dos anos 1930, o papel de provedores do currículo final dessas disciplinas. Pressentimos o estudo científico do poder a, finalmente, se transformar na primeira pós-graduação de Ciência Política no país em 1967, a que se somava a de Sociologia no mesmo grau de exigência acadêmica. Ideamos, como Clark Kerr, a multiversidade, não o perfil clássico e pobre dos estudos apinhados num campus único.
Pensamos num padrão nítido da nossa oferta básica de Ciências Sociais – Direito, Economia, Administração, Contabilidade Superior – na sua matriz da Praça XV.
Moveu-nos a ideia de reproduzir esse mesmo módulo de excelência e tradição, bateado há mais de meio século, em outras áreas do espaço do Rio de Janeiro. Reproduzimo-lo em Ipanema, oferecendo outra opção de ensino em área tradicionalmente delimitada, então, entre a tarefa da PUC e da Santa Úrsula. Continuamos com o implante em Campos e em Friburgo. Presidira a expansão a ideia de se criar um primeiro espaço didático privado, a cobrir progressivamente toda a dimensão do estado. Tratava-se, ao mesmo tempo, de evitar as migrações forçadas do estudantado dentro do Rio de Janeiro, com o risco, muitas vezes, de cortar na flor – com a falta de volta à terra matriz – vocações, no Norte ou no Centro Fluminense, capazes de dar o melhor de si, se retornassem, de fato, ao meio em que despontaram. Avançariam, a seguir, os campi de Niterói, Tijuca, Méier, Jacarepaguá, Penha, Araruama, Santa Cruz, Bangu, Padre Miguel e Guadalupe.
No fio do dizer, não calamos no autoritarismo, e no inverno da polêmica que emudeceu o Brasil, seu debate e suas franquias de espírito, a partir de 1964. Durante os anos do regime militar, pôde a Candido Mendes convidar diversos pensadores internacionais, manter em dia a inquietação do conhecer brasileiro e abri-la às exigências do humanismo. Arnold Toynbee, Gunnar Myrdal, o juiz Douglas, da Corte Suprema americana, Edgar Morin, Bob Kennedy, Paul Rosenstein-Rodan, Georges Lavau, Everett Hagen, Samuel Huntington, Alex Inkeles, Talcott Parsons, todos, protopersonas, deram-nos a sua palavra e o rumo dos seus conheceres, num país emudecido.
São 11 décadas de uma velha paixão pela excelência, que se guarnecem de uma fartura de educadores ou de devotos da sua exclusiva convicção do que seja o melhor serviço. Na sua premonição, ou na teima dos valores do passado, nos cursos e teores do aprendizado oferecido, mantivemos o Direito Romano e abrimos os primeiros cursos de Direito Público Econômico. Insistimos na Deontologia Jurídica e implantamos o primeiro curso de Prática Forense – o FUCAM –, antes das práticas dos Exames da Ordem.
Casa da comunidade e não da ação entre amigos. Feroz nas suas crenças e na verdade intransitiva de uma paixão e de um donaire, no que herdamos, nesta faina e nesta obsessão, de Candido Mendes Sênior (1902-1939) e de Candido Mendes Junior (1939-1962).